Isomeria

História Da Isomeria

O termo Isomeria foi criado por Berzelius em 1830. Ele considerou as palavras gregas (iso = mesma(s); meros = partes) para dar a ideia de “mesma composição”.A Isomeria é um fenômeno comum e retrata a diversidade de compostos presentes na natureza. Na química orgânica, a ocorrência deste fenômeno é justificada pela capacidade que o carbono tem de formar longas cadeias estáveis e as múltiplas combinações que sua tetravalência proporciona.

Definição de Isomeria: fenômeno pelo qual duas substâncias compartilham a mesma fórmula molecular, mas apresentam estruturas diferentes, ou seja, o rearranjo dos átomos se diferem em cada caso.Os químicos Justus von Liebig e Friedrich Wöhler são responsáveis pela descoberta dos primeiros isômeros: fulmanato de prata e cianato de prata. Os cientistas verificaram que as fórmulas das duas moléculas eram idênticas (AgCNO), mas a posição dos ligantes eram diferentes. Concluíram então que o arranjo espacial dos átomos era diferente.Fulmanato de prata (Ag-CNO),
cianato de prata (Ag-NCO).

Já em 1830, o químico Berzelius que deu nome ao fenômeno, em seus experimentos para obter ácido tartárico, fez a seguinte observação: durante o processo era possível obter duas formas diferentes da substância, com composição e fórmulas idênticas, mas que se diferenciavam pela posição dos átomos na molécula.

Isomeria Plana

Isômeros se definem como substâncias diferentes que apresentam a mesma fórmula molecular, mas se diferem em alguns aspectos.A Isomeria plana aborda os isômeros através do estudo de suas fórmulas estruturais planas.

Vejamos os cinco tipos de Isomeria plana:

Resultado de imagem para isomeria resumo

• Isomeria de Função: os isômeros possuem mesma fórmula molecular, mas pertencem a funções diferentes.
Essa isomeria ocorre principalmente com alcoóis e éteres, aldeídos e cetonas, ácidos carboxílicos e ésteres.
Exemplo:
Éter dimetílico e álcool etílico possuem a mesma fórmula molecular: C2H6O, mas pertencem a diferentes funções:
Éteres: compostos que apresentam Oxigênio (O) localizado entre carbonos.
Alcoóis: apresentam grupo (-OH) ligado a carbono saturado.
 Isomeria de Posição: os isômeros possuem o mesmo tipo de cadeia e pertencem à mesma função, mas apresentam diferença na posição de um grupo funcional, de uma insaturação ou de uma ramificação.Exemplos:Isômeros xilenos (orto, meta e para).C8H16
As três estruturas apresentam diferença na posição dos grupos – CH3 (ramificações).

1-pentino e 2-pentino possuem mesma fórmula molecular: C5H8O.
A diferença entre os isômeros está na insaturação (ligação tripla), indicada pelos algarismos 1 e 2.
 Isomeria de Cadeia: os isômeros pertencem à mesma função, mas apresentam diferentes tipos de cadeia.
H2C = CH – CH3           cadeia aberta  
                                                                                     
       cadeia fechada
Propeno e Ciclopropano possuem mesma fórmula molecular (C3H6) e pertencem à mesma função (hidrocarbonetos), mas se diferem no tipo de cadeia.
Propeno – cadeia aberta (alifática)
Ciclopropano – cadeia fechada (cíclica)
• Metameria: ou Isomeria de Compensação. Os isômeros pertencem à mesma função, apresentam o mesmo tipo de cadeia, mas se diferem na posição do heteroátomo. Heteroátomo: átomo diferente de carbono presente nas cadeias carbônicas.
Exemplo:C4H11N
A fórmula molecular C4H11N é a mesma para ambas as cadeias, elas também pertencem à mesma função (Amina), porém o diferencial está na posição do heteroátomo: N (Nitrogênio). Na metil-propil amina, o nitrogênio se posiciona na extremidade da cadeia e na dietil amina está centralizado.
• Tautomeria: também conhecida por Isomeria dinâmica, nela os isômeros pertencentes a funções químicas diferentes estabelecem um equilíbrio químico dinâmico em solução.                                                                                                                                                                
Cetona                                                 Enol
Pode-se dizer que os compostos cetona e enol, apesar de pertencerem a funções químicas diferentes, são isômeros (tautômeros).

Isomeria Espacial

A isomeria espacial faz uma análise espacial da molécula, ela é dividida em: isomeria geométrica e isomeria óptica.

Isômeros espaciais são compostos que possuem a mesma fórmula molecular, mas se diferem na fórmula estrutural. Só é possível perceber a diferença através da análise espacial da molécula.Existem dois tipos de isomeria espacial: geométrica e óptica.• Isomeria geométrica: análise da posição dos átomos num plano imaginário (tridimensional). Os ácidos maleico e fumárico são classificados como isômeros geométricos em razão de suas estruturas espaciais:
Os isômeros possuem a mesma fórmula molecular como também a mesma fórmula estrutural plana, a diferença está na posição das ramificações – COOH: no isômero cis elas se posicionam do mesmo lado e no isômero trans, ocupam lados opostos.O prefixo “Cis” pode ser representado pela letra Z e “Trans” pela letra E. Desta forma temos: Z- butenodioico e E- butenodioico.• Isomeria óptica: estuda o comportamento das substâncias submetidas a um feixe de luz polarizada. Algumas substâncias têm a propriedade de desviar o plano de vibração da luz, elas são, por isso, denominadas de isômeros ópticos.Para entender a Isomeria óptica atente-se para o estudo da luz. A luz emitida por uma lâmpada incandescente é constituída de ondas eletromagnéticas, que se propagam com vibrações em infinitos planos, formando um movimento espiralado. Se essas vibrações passarem por um filtro, teremos então a luz polarizada: vibração em apenas um plano.
* Os aparelhos capazes de fazer essa conversão são denominados de polarizadores.Imaginemos duas moléculas frente ao espelho (ilustrado por um traço):
Repare que as moléculas de Cloro-metano são sobreponíveis (se sobrepõe), ou seja, a imagem refletida no espelho é exatamente igual (objeto = imagem). Já a molécula de Ácido láctico tem seu reflexo no espelho de forma invertida, as imagens não são sobreponíveis (objeto ≠ imagem). Trata-se dos isômeros ácido l-láctico e ácido d-láctico.Essa análise é muito importante, uma vez que os aspectos fisiológicos destes isômeros se diferenciam. O ácido l-láctico é produto da fermentação de açúcares e o d-lático está presente nos músculos.Só é possível detectar a diferença destes isômeros quando os mesmos são submetidos a um feixe de luz polarizada: eles desviam o plano de vibração da luz.

Talidomida

A talidomida é um fármaco que possui dois isômeros ópticos, sendo que um atua como sedativo e o outro causa deformações em fetos, sendo, portanto, proibido para grávidas.

A talidomida é um fármaco que passou a ser comercializado bastante na Europa, nas décadas de 50 e 60, como sedativo para aliviar náuseas em mulheres grávidas. Ele era feito na forma de sua mistura racêmica, ou seja, conforme se pode observar abaixo, a molécula desse composto é assimétrica, pois possui um carbono quiral (carbono com os quatro ligantes diferentes entre si). Isso significa que a talidomida possui dois isômeros espaciais ou estereoisômeros, que são mais bem chamados de enantiômeros, visto que são a imagem especular um do outro:
Fórmulas dos enantiômeros da talidomida

Os enantiômeros da talidomida possuem atividade óptica, sendo que o dextrogiro ou enantiômero (R) desvia o plano de luz polarizada para a direita, e o levogiro ou enantiômero (S) desvia o plano de luz polarizada para a esquerda. Assim, uma mistura racêmica é opticamente inativa porque contém partes iguais desses dois enantiômeros.

No entanto, essa diferença na conformação espacial dos átomos acaba por resultar em diferentes propriedades biológicas, ou seja, diferentes atividades exercidas em um organismo vivo. Com o tempo, descobriu-se que somente o isômero dextrogiro ou (R) era responsável pelas propriedades analgésicas, sedativas e antessentires, enquanto a talidomida levogira (S) é teratogênica, isto é, provoca mutações no feto.Por essa razão, durante as décadas mencionadas nasceram cerca de 12 mil crianças com má formação. Entre os efeitos colaterais que a talidomida pode causar nos fetos estão: desenvolvimento incompleto ou defeituoso dos membros, malformação no coração (como a ausência de aurículas), intestino, útero e vesícula biliar; efeitos nos músculos dos olhos e da face, surdez, defeitos na tíbia e no fêmur, além de, como a imagem a seguir mostra, polegar com três

juntas:
Malformação congênita dos pés, um dos efeitos do uso de talidomida sobre fetosImagem relacionada
Malformação congênita dos pés, um dos efeitos do uso de talidomida sobre fetos*
O estudo sobre a quiralidade da talidomida, bem como de outros medicamentos, vem aumentando cada vez mais. Atualmente, a talidomida tem seu uso proibido em mulheres grávidas e em mulheres que não estejam utilizando dois métodos contraceptivos sob um rigoroso acompanhamento médico.É importante ressaltar que mesmo quando o fármaco apresenta somente o enantiômero (R), ele ainda leva à má formação dos fetos porque, no organismo, o isômero dextrogiro sofre racemização e origina o isômero levogiro, que é o teratogênico.Além disso, o perigo ainda existe porque a talidomida é um medicamento muito eficaz no combate a outras doenças, como a hanseníase.
Por isso, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), na Resolução da Diretoria Colegiada – RDC/Anvisa nº 11, de 22 de março de 2011, dispõe sobre o controle da substância e do medicamento Talidomida. Ao longo do ano de 2013, a Anvisa promoveu cursos de capacitação com o objetivo de orientar os profissionais envolvidos em relação ao controle do medicamento Talidomida, reforçando o risco inerente a essa substância, discutir e esclarecer as dúvidas sobre o tema, além de prevenir o desvio desse fármaco.* Crédito da imagem: Autor: Otis Historical Archives National Museum of Health and Medicine /
Fonte: Wikimedia Commons.
Por Jennifer Fogaça
Graduada em Química

O uso da talidomida é totalmente proibido para mulheres grávidas
O uso da talidomida é totalmente proibido para mulheres grávidas

Isômeros Opticamente Ativos

Isômeros opticamente ativos são substâncias orgânicas capazes de polarizar e desviar o plano da luz para a direita e para a esquerda.

Isômeros opticamente ativos são moléculas de uma determinada substância orgânica que possuem a capacidade de polarizar e desviar o plano da luz polarizada para a direita ou para a esquerda.
Representação da luz despolarizada
Representação da luz despolarizadaNa imagem acima, temos a representação da múltipla incidência dos feixes de luz a partir de uma fonte luminosa.Ao polarizar a luz, um isômero opticamente ativo faz com que as ondas eletromagnéticas passem a incidir em uma única direção, já que naturalmente aé despolarizada, ou seja, incide para várias direções luz .
Representação da luz polarizada
Representação da luz polarizadaA imagem acima representa a única incidência dos feixes de luz, a partir de uma fonte luminosa, polarizada ao passar por uma substância que apresenta isômeros opticamente ativos.Como foi dito, além de polarizar, existem isômeros que desviam a luz para a direita e outros que desviam a luz para a esquerda, conforme a representação abaixo:
Desvios realizados por moléculas de isômeros opticamente ativos
Desvios realizados por moléculas de isômeros opticamente ativos⇒ Dextrogiros: é o nome dado à molécula da substância capaz de polarizar e desviar a luz para a direita;
⇒ Levogiros: é o nome dado à molécula da substância capaz de polarizar e desviar a luz para a esquerda.
Como saber se estamos diante de uma substância cujas moléculas são isômeras ópticas?A resposta para essa pergunta é muito simples. Quando o composto orgânico tem um carbono quiral (que possui obrigatoriamente quatro ligantes diferentes), automaticamente ele apresenta molécula dextrogira e levogira.Observe que cada grupo R ligado ao carbono é diferente entre si:
Representação geral de um carbono quiral
Representação geral de um carbono quiral Assim, se existe um carbono quiral na estrutura de um composto orgânico, este apresenta obrigatoriamente moléculas dextrogiras e levogiras, as quais são determinadas pela fórmula proposta por Van’t Hoff:
IOA = 2nNessa fórmula:⇒ IOA: quantidade de isômeros opticamente ativos;⇒ n: número de carbonos quirais.É importante ressaltar que, ao determinar a quantidade de IOA, 50% serão de dextrogiros, e os outros 50% serão de levogiros. Para um melhor entendimento, acompanhe o seguinte exemplo:
Exemplo: Número de isômeros opticamente ativos no pentan-2-ol
Fórmula estrutural do pentan-2-ol
Fórmula estrutural do pentan-2-olO carbono de número 2 dessa estrutura apresenta os seguintes ligantes:⇒ Metil (CH3);⇒ Hidrogênio (H);⇒ Hidroxila (OH);⇒ Propil (H3C-CH2-CH2);Dessa forma, a estrutura apresenta dois carbonos quirais, logo:IOA = 2nIOA = 21IOA = 2Como o resultado é 2, sabemos que, a cada duas moléculas do composto pentan-2-ol, uma é dextrogira e outra é levogira.
O ácido lático apresenta isômeros opticamente ativos
O ácido lático apresenta isômeros opticamente ativos

O Que É Um Carbono Assimétrico Ou Quiral?

Uma das formas de verificarmos se uma molécula possui atividade óptica, ou seja, se desvia o plano de luz polarizada, é observar se ela é assimétrica. Isso pode ser visto ao analisarmos se a molécula possui algum carbono assimétrico ou quiral.Um carbono assimétrico possui quatro ligantes diferentes entre si, como mostra o caso genérico abaixo:
G3
|
G1 — C*— G          Sendo que G≠ G≠ G≠ G4
|
G4
Exemplo:
H
|
H3C — C* — CH2 — CH2 — CH
|
CH2
|
CH3
Veja que quando analisamos os ligantes, olhamos toda a estrutura complexa ligada ao átomo de carbono assimétrico e não somente os ligantes imediatos. Na estrutura acima, somente o carbono em preto é assimétrico, todos os outros carbonos possuem pelo menos dois ligantes iguais, sendo átomos de hidrogênio.Esse tipo de carbono é chamado de “assimétrico” porque não admite um plano de simetria e é denominado também “quiral” porque essa palavra vem do grego khéir, que significa mão. Quando colocamos uma de nossas mãos em frente ao espelho, a imagem reflete exatamente a mão oposta. Por exemplo, se colocarmos a mão esquerda, a imagem será a da mão direita e vice-versa. Isso mostra que as nossas mãos, que são assimétricas, são também exatamente a imagem especular uma da outra. Porém, se tentarmos colocar uma sobre a outra, veremos que elas não se sobrepõem.Isso também ocorre com os isômeros da molécula que possui um carbono quiral. Esses isômeros, denominados de enantiômerossão a imagem especular um do outro, mas eles não se sobrepõem. Veja a ilustração a seguir para entender melhor como isso acontece:Os enantiômeros são como as mãos, são a imagem especular um do outro, mas não são sobreponíveis
Para você ver como isso não ocorre com uma molécula que não possui um carbono assimétrico, considere o caso a seguir:As moléculas são de uma mesma substância, mas não são enantiômeros
Na primeira parte, em que as moléculas são colocadas como que em um espelho, pode parecer que se trata de enantiômeros, pois são a imagem especular uma da outra e parece que elas não se sobrepõem. Porém, um simples giro da molécula mostra que as duas estruturas não são enantiômeros, mas molécula
O carbono quiral possui todos os ligantes diferentes e seu isômero é exatamente a sua imagem especular de uma mesma substância.

O carbono quiral possui todos os ligantes diferentes e seu isômero é exatamente a sua imagem especular

 

A tragédia da talidomida e a luta por direitos e regulação

Novembro/2017

Imagem do acervo da ABPST. Clique para ampliar.

A tragédia da talidomida, no final dos anos 1950, foi um divisor de águas na regulação de medicamentos. Ela foi descoberta na Alemanha em 1953 para ser agregada a antibióticos, mas foi reconhecida mundialmente após 1957 como sedativo e hipnótico. Em 1961, entre 10 e 15 mil crianças nasceram com malformações após suas mães terem ingerido o medicamento durante a gestação.

No Brasil, o assunto talidomida nunca saiu da pauta de problema público, pois a falta de uma regulação efetiva do medicamento fez com novos casos de malformações aparecessem após a aparentemente retirada da droga de circulação em 1962.

No artigo A tragédia da talidomida: a luta pelos direitos das vítimas e por melhor regulação de medicamentos, Adriana Moro e Noela Invernizzi, respectivamente doutoranda e professora do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Paraná, revisitam a história da talidomida e seus desdobramentos no plano regulatório e dos direitos das vítimas no Brasil com base em revisão de literatura, análise documental e reportes de jornais. Entre dezembro de 2014 e agosto de 2015, as autoras pesquisaram o acervo da Associação Brasileira de Portadores da Síndrome da Talidomida (ABPST) de notícias da mídia impressa veiculadas entre as décadas de 1960-1980.

“Observamos que a mídia se tornou um espaço para a voz das vítimas, jogando um papel relevante ao transformar o drama das famílias em um problema público. As organizações de vítimas e familiares, assim como médicos, advogados e outros atores demandaram publicamente maior controle da indústria farmacêutica e denunciaram as lentas respostas dadas às vítimas. A divulgação também auxiliou na conquista de outras pautas como os direitos dos portadores de deficiência e promoveu o debate social sobre questões bioéticas referentes aos conflitos de interesse na saúde, o direito à vida, o aborto, entre outros”, revelam.

Segundo as autoras, os eventos evidenciaram a carência de normas fortes para o uso seguro de medicamentos e o quão frágeis eram a regulação e as práticas de comunicação entre médicos e instituições, o que não apenas permitiu a ocorrência da tragédia como também gerou morosidade no seu enfrentamento. “As notícias denotaram a tremenda desigualdade entre o poder das empresas causantes do problema e as vítimas. A transformação dos acontecimentos em um problema público, mediante sua veiculação na mídia, e a crescente mobilização das vítimas, foram forças essenciais que pressionaram por uma regulação de medicamentos mais efetiva”, afirmam.

Leia em HCS-Manguinhos:

A tragédia da talidomida: a luta pelos direitos das vítimas e por melhor regulação de medicamentos
Adriana Moro e Noela Invernizzi, respectivamente doutoranda e professora do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas/Universidade Federal do Paraná.

Talidomida, o calmante barato e eficaz que causou terríveis deformações físicas nos recém nascidos

As pessoas mais velhas e bem informadas ainda lembram bem deste nome: Talidomida. Prescrito como calmante e sonífero no final dos anos cinquenta e início dos sessenta, o medicamento (na verdade Talidomida é o seu nome químico e não o de vendas) transformou-se em um sinistro sinônimo da ganância monstruosa da indústria farmacêutica. Lançada sem a devida comprovação de seus efeitos colaterais, testada apenas em ratos, produzida em dezenas de países com nomes comerciais diferentes (Contergan, Distaval, Kevadon, Softnon, Talimol etc), a substância foi sintetizada pelo laboratório Chemie Grünenthal, de Nordrhein-Westfalen, na então Alemanha Ocidental e, dentro em breve, logo após o seu lançamento comercial, em 1956, (como anti-gripal e com o nome de Grippex), transformou-se em uma mina de ouro para a indústria, a qual investiu pesadamente na sua divulgação.
Na verdade, a partir de tal substância, fabricava-se inúmeras marcas comerciais que, somente em um ano, na Alemanha, venderam a assombrosa quantidade de 14 toneladas. Mais de 20 outros laboratórios, em diferentes países de todo o mundo, foram licenciados para a sua produção. No Brasil, a Talidomida chegou em março de 1958, nas marcas Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil e Slip, todas vendidas sem a exigência da receita médica. Era, então, considerado o melhor soporífero jamais inventado, passando também a ser utilizado contra a gripe, a nevralgia, a asma, a tosse e, sobretudo, como antiemético para as mulheres grávidas.Foi justamente aí que ele fez história – uma tétrica história: receitado para muitas grávidas em início de gestação, ingerido em pílulas brancas, era um sedativo barato que provocava um sono rápido, profundo e natural, sem a característica “ressaca” da manhã seguinte. De igual forma, podia ser ingerido em doses maciças que não causaria a morte do paciente, nem mesmo se este quisesse praticar o suicídio. Ideal, e, como logo se viu, fatal, ou pior que isso, para os fetos em início de formação.
Usado nos primeiros 40 dias da gestação, atuava como teratogênico – ou seja, produzia monstros, se é que, infelizmente, assim se pode falar de suas vítimas, calculadas em cerca de 10 mil em todo o mundo. As crianças nasciam muitas vezes sem dois, três ou até quatro membros, dentre tantos outros efeitos observados.A má-formação dos membros tinha um nome científico: focomelia (do grego “phoke” – foca- e “melos” – membros), ou “membros de foca”. Os braços dos recém-nascidos surgiam como tocos abaixo dos ombros, semelhantes às nadadeiras das focas. Também se observou deformação dos olhos, do esôfago e do tubo digestivo. De cada duas crianças nascidas assim, apenas uma sobrevivia. Sem entender o porquê daquilo, com problemas de consciência, algumas mães enlouqueceram e outras chegaram a praticar o suicídio. Em 1961, os casos de “focomelia” já eram tantos que se falava em uma “epidemia”.
De início foi extremamente difícil descobrir-se a origem de tal fenômeno, o elo comum. Pensou-se nos alimentos, na água, até em poeira atômica. Porém, graças a duas pessoas precisou-se exatamente a Talidomida como o fator causador. Uma delas, o advogado Karl Schulte-Hillen, de 32 anos, não havia aceito a explicação “genética” como a causadora da focomelia do seu filho recém-nascido. Homem saudável e esclarecido, ele descobriu que, coincidentemente, um casal de amigos seus tivera um filho em condições idênticas. Intrigado e inconformado, Karl passou a fazer investigações por conta própria, conversando com as mães que haviam dado a luz a tais “monstros”. Ao tentar chamar a atenção da comunidade médica para o que estava se passando, encontrou uma revoltante indiferença e ignorância. Foi então que surgiu em seu caminho o médico Widukind Lenz, um pediatra especializado em genética que aliou-se a Karl, encampando a causa. Lenz, por fim, achou o nexo causal.No dia 16 de novembro de 1961, Lenz comunicou oficialmente à indústria fabricante dos efeitos nocivos dos medicamentes a base de Talidomida – Contergan, no caso da Alemanha Ocidental. Ele, pessoalmente, já conhecia 13 casos. A Chemie Grünenthal, porém, não retirou o remédio do mercado – o que de fato só ocorreu quando a história virou manchete de jornal. O Contergan era o carro-chefe das suas vendas, uma verdadeira “galinha dos ovos de ouro”, rendendo milhões e milhões de marcos.Sooou então o alarma em todo o mundo. Nesse tempo, às suas próprias custas, Schulte-Hillen contratou oito fisioterapeutas que, juntamente com ele, passaram a percorrer a Alemanha Ocidental, à procura de vítimas da Talidomida. Entre agosto de 1964 e dezembro de 1965, visitaram 1.600 das 3.000 vítimas vivas da substância. Com seu endereço publicado nos jornais, choveram cartas, narrando novos casos.
A maioria das vítimas da Talidomida estava na Alemanha e na Inglaterra. Nos Estados Unidos, graças a uma mulher, o medicamento (lá chamado de Kevadon), não chegou a causar tantos danos e sofrimentos (não mais do que 20 vítimas). A ser fabricado pela Merrel Co., uma empresa de Cincinati, Ohio (e que ainda hoje é uma das grandes do mercado farmacêutico), não chegou a ser liberado pela Secretaria de Alimentos e Remédios (FDA, sigla em inglês). Apesar das terríveis pressões da indústria, a médica responsável pela aprovação, Dra. Frances Oldham Kelsey, recusou-se a dar o parecer favorável, alegando que as provas de garantias de não havier efeitos colaterais deletérios eram insuficientes. Em agosto de 1961, quando o escândalo veio a público, ela recebeu do presidente John Kennedy a medalha por Destacados Serviços Civis, por reter a aprovação da Talidomida – medalha esta que é uma das mais altas condecorações daquele país.
NO BRASIL – A Talidomida chegou ao Brasil em março de 1958, com os nomes de Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil, Slip. Em março de 1962, o Serviço Nacional de Fiscalização de Medicina e Farmácia proibiu o uso da Talidomida em todo o país, mandou apreender os estoques e cassar as licenças de fabricação. A medida, no entanto, não surtiu lá grandes efeitos pois o medicamento continuou ainda a ser usado durante anos devido à falta de informação da população, do descontrole na distribuição e, sobretudo, graças à omissão do governo e ao poder econômico dos laboratórios. Em 27 de novembro de 1973 foi criada, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a Associação Brasileira dos Pais e Amigos das Crianças Vítimas da Talidomida, entidade declarada de utilidade pública.
Nos últimos anos o interesse pela Talidomida trouxe novamente o debate à tona. Conforme alguns testes – ainda não plenamente comprovados – ela teria eficácia na luta contra a lepra, contra a tuberculose e até para aumentar a resistência de pacientes aidéticos. A questão, entretanto, ainda está em aberto. (Pesquisa e texto: Conselheiro X.)

 

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bbraga

Sobre bbraga

Atuo como professor de química, em colégios e cursinhos pré-vestibulares. Ministro aulas de Processos Químicos Industrial, Química Ambiental, Corrosão, Química Geral, Matemática e Física. Escolaridade; Pós Graduação, FUNESP. Licenciatura Plena em Química, UMC. Técnico em Química, Liceu Brás Cubas. Cursos Extracurriculares; Curso Rotativo de química, SENAI. Operador de Processo Químico, SENAI. Curso de Proteção Radiológica, SENAI. Busco ministrar aulas dinâmicas e interativas com a utilização de Experimentos, Tecnologias de informação e Comunicação estreitando cada vez mais a relação do aluno com o cotidiano.

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