OS ESTOICOS – PARTE III – MARCO AURÉLIO

OS ESTOICOS – PARTE III – MARCO AURÉLIO

Caesar Marcus Aurelius Antoninus Augustos, também conhecido como o imperador-filósofo (121 Roma-180 Viena) foi Imperador romano de 161 até sua morte. Muito jovem perdeu o pai e foi, então, criado por seu avô. Porém seus avós também logo faleceram e ele então foi adotado por Antonino Pio, seu tio, à pedido do imperador Adriano. Aos 8 anos de idade ele iniciou seus estudos sobre Filosofia e, aos 12 anos, decidiu por seguir a doutrina do estoicismo. Muito cedo? Para os padrões de hoje em dia pode até ser. Mas vale lembrar que naquela época os homens, ainda mais os que participavam das guerras, não chegavam sequer a completar 40 anos! Além do mais, Marco Aurélio era realmente uma exceção: foi nomeado imperador aos 39 anos; viveu por 59 anos; casou-se com Faustina, a jovem, e com ela teve 13 filhos; da dinastia dos 7 imperadores que governaram Roma entre 96 e 192, ele foi o último; e também o único imperador a nomear um filho consanguíneo, Comodus, ao trono. Historiadores associam a morte de Marco Aurélio e a ascensão de Comodus ao trono ao início da queda do império romano.

Seu reinado deu-se num período histórico bastante turbulento. Foi um período de muitas batalhas pelas fronteiras do império Romano, assim como de muitas catástrofes naturais e doenças que se alastravam pelos diferentes povos dominados. E foi em meio a todas essas situações que Marco Aurélio escreveu Meditações em um primoroso grego arcaico.

No ocidente, o primeiro registro desta obra é de 1559, ano em que foi publicada a primeira edição impressa acompanhada de uma tradução em latim, baseada num manuscrito agora perdido. Hoje possuímos apenas um texto completo datado do século XIV. E é deste texto que foram feitas versões em inglês, francês, italiano, alemão, …, persa e até mesmo português! 🙂

Meditações foi uma espécie de diário pessoal de Marco Aurélio. A obra está ligada aos costumes estoicos e principalmente a Epicteto. Meditações talvez seja o melhor exemplo da escrita como atividade filosófica. Marco Aurélio seguiu os conselhos de Epicteto, exatamente como vimos no texto da semana passada:

“A principal tarefa na vida é simplesmente esta: identificar e separar questões de modo que eu possa dizer claramente quais são externas, fora do meu controle, e quais têm a ver com as escolhas sobre as quais eu, de fato, tenho controle. (…) É sobre isso que os filósofos devem meditar; é sobre isso que eles devem escrever todos os dias, isso deveria ser o objeto de seus exercícios.”  “Você deve ter estes princípios à mão tanto de noite como de dia; você deve escrevê-los; você deve lê-los.”

“Marco Aurélio estava, assim, praticando exercícios espirituais estoicos. Ele estava usando a escrita como uma técnica ou método para influenciar a si mesmo, e para transformar seu discurso interno ao meditar nos dogmas e regras de vida do Estoicismo.”

Meditações é composto de 12 livros, todos bem curtinhos. É um livro de bolso, tão conciso quando o Manual de Epicteto. Afinal a ideia era esta mesma: ter sempre à mão preceitos estoicos capazes de guiar o praticante no dia-a-dia.

Aqui escolhemos conversar sobre 3 exercícios praticados por Marco Aurélio e citados ao longo de sua obra. Entretanto, como sempre, vale a recomendação da leitura integral do texto. É realmente uma pérola que demonstra a elevada natureza do imperador-filósofo. “Ensina a viver com nobreza e sem temor, a enfrentar os percalços da vida sem subserviência. (…) Ensina que o ideal a ser buscado é a harmonia com a Natureza e suas leis.”

Então, vamos lá:

“Dizer para si mesmo, ao amanhecer: Sei que vou encontrar um indiscreto, um ingrato, um grosseiro, um velhaco, um invejoso, um intolerante. Mas esses homens são assim devido à sua ignorância do bem e do mal. Porém eu, compreendendo a natureza do bem, que é o belo, e do mal, que é o feio, e da natureza dos próprios culpados, meus parentes, não pelo sangue, ou pelo nascimento, mas pela inteligência e pela origem divina, não temo que me causem dano algum. Sei que não poderão macular suas feias ações. Não devo me zangar com um parente, tampouco evitá-lo, já que nascemos para colaborar na mesma obra, como os pés, as mãos, as pálpebras, os dentes superiores e inferiores. É contra a Natureza a hostilidade recíproca. A cólera e a aversão são hostilidades.”

Os estoicos acreditavam que o desenvolvimento ético tem duas vertentes principais. A primeira está em reconhecer que nossa felicidade e realização dependem do desenvolvimento das virtudes em nós mesmos. A segunda está em nos relacionarmos virtuosamente com as outras pessoas. É essencial que estas vertentes caminhem juntas. Na verdade, as relações com os outros apenas refletem a nossa própria compreensão das virtudes. Interessante este ponto de vista, não é?!

Suponha que as pessoas sejam injustificadamente grosseiras e maldosas com você. Como você reagiria? Com raiva e hostilidade recíproca? Não, segundo Marco Aurélio! Deve-se utilizar do nosso desenvolvimento das virtudes para reconhecer nossos ímpetos de reação negativa e impedi-los de entrarem em cena. Afinal, não podemos determinar como as outras pessoas reagirão a nós, mas temos total controle de como reagiremos frente a uma situação como esta. E respondendo com tolerância, generosidade e carinho estamos inclusive contribuindo para o desenvolvimento das virtudes na outra pessoa.

Difícil seguir esta linha de pensamento na prática? Pode até ser! Ainda mais dependendo da situação. Aí cabe lembrar da analogia de Epicteto quando ele fala que o desenvolvimento das virtudes é como o desenvolvimento dos músculos nos atletas. É preciso auto superação diária nos exercícios, senão músculos e virtudes não se desenvolvem. E isso não vem de graça…. É com esforço e geralmente até com uma dorzinha pós-treino! =)

Outro ponto que se pode abordar sobre este mesmo trecho de Meditações é o fato de toda a humanidade ser considerada parente. Os estoicos acreditavam que tudo na Natureza está ligado e já conversamos sobre isso no texto de Sêneca. De uma perspectiva moderna, podemos pensar que somos todos poeiras de estrelas que um dia entraram em colapso, portanto temos todos a mesma origem. Chega a ser poético! Mas é mais! É cosmologia! É física aplicada! (Sugestão de pesquisa: Carl Sagan). E aí somos todos parentes sim. Não só os seres humanos entre si, mas tudo o que há na natureza!

“Sendo assim o que conserva o mundo são essas transformações, tanto dos elementos quanto dos compostos que são formados. Que estas verdades te satisfaçam.”

Olhando as coisas por esta perspectiva de redução de níveis, pode-se lembrar do seguinte trecho de Meditações:

“Assim como se tem um conceito das carnes e peixes e comestíveis semelhantes, sabendo que isso é um cadáver de peixe, aquele cadáver de um pássaro ou de um porco; e também que o Falerno é suco de uva, e a toga pretexta lã de ovelha tingida com sangue de marisco; (…) esses conceitos alcançam seus objetos e penetram em seu interior, de modo que se pode ver o que são! Assim, é preciso agir ao longo da vida inteira, e quando as coisas te derem a impressão de serem dignas de crédito em excesso, analise-as e observe seu nulo valor, e despoje-as da ficção, pela qual se vangloriam.”

Esse exercício estoico chama-se “contemptuous expressions” e poderia ser traduzido como “expressões desdenhosas”. A ideia aqui é bem simples e simplista: reduzir o objeto de preocupação ao menor grau morfológico possível. Como assim? Bom, comidas caras e requintadas ainda são animais e plantas mortos; roupas “chiques” são linhas de fios vindos também de plantas ou animais (mesmo as linhas sintéticas, afinal vêm do refino petroquímico); carros caros e luxuosos são apenas um aglomerado de polias e engrenagens; e assim por diante. E é então que aquele iPhone novo, que não te deixa dormir pela ansiedade da compra, deixa de ser tudo aquilo… Olhando por esta perspectiva os objetos deixam de ser venerados e perdem aquele brilho criado pelo marketing para que consumamos cada vez mais. E, além disto, paramos para pensar em que tipo de coisas investimos nossa energia e nosso (contado – memento mori) tempo!

Vale a ressalva, que neste aforismo, Marco Aurélio realmente trata apenas de coisas, objetos e sensações, não de pessoas. Quando se pensa em pessoas é preferível lembrar da decomposição citada anteriormente, que leva à irmandade da humanidade.

Mas sensações também? Sim, sensações também! Lembra aquele trecho de Nietzsche citado no primeiro texto da trilogia estoica aqui do Zeitgeist?

“O estoico tenta engolir pedras e vermes, lascas de vidro e escorpiões, e não sentir nojo; seu estômago deve, finalmente, tornar-se indiferente a tudo o que o acaso da existência despeja nele.”

Pois é, Nietzsche acreditava que os estoicos mostravam-se indiferente às coisas que lhes aconteciam. Mas veja, depois de que tudo o que já conversamos aqui no Zeitgeist, podemos dizer que os estoicos ensinam a identificar emoções e cultivar sentimentos. E qual a diferença entre emoção e sentimento? Bom, emoção é tudo aquilo que sentimos inconscientemente e de maneira abrupta, enquanto o sentimento é a emoção consciente e trabalhada. Exemplo simples: a emoção da paixão quando identificada e trabalhada vira amor! 🙂  Não vamos nos prolongar nisto, mas quem tiver interesse pode assistir uma série de vídeos do Prof em Neurociências Pedro Calabrez sobre este tema. É só clicar aqui. Os vídeos do Neurovox são ótimos! E inclusive, se analisarmos por uma perspectiva estoicista, conseguimos fazer este exercício de “expressões desdenhosas” com várias emoções, basta conhecer o funcionamento do cérebro! 🙂

Lembra do texto sobre Apolo e Dionisio? Esse era o ponto de vista de Nietzsche! O apontamento de que racionalizamos demais as coisas e deixamos de aproveitar o que o dionisíaco nos oferece, isto é, ficamos lógicos demais! O estoicismo é sim bastante lógico e racional, mas conhecendo um pouco de cada ponto de vista, fica mais fácil manter o equilíbrio e conseguir julgar o que é mais adequado em cada momento.

O último exercício aqui citado é chamado “view from above” ou “vista de cima”.

“Das coisas que te molestam poderás livrar-te, pois muitas dessas coisas provêm de tua opinião. E poderás alcançar maiores perspectivas se, tentando abranger pelo pensamento o mundo inteiro e conceber a eternidade da duração, meditares nas céleres mutações de cada ser no breve intervalo entre seu nascimento e sua dissolução, no tempo infinito que precedeu aquele e a esta se seguirá.”[10]

Este clássico exercício estoico nos permite ver as coisas de uma certa distância e coloca-nos numa perspectiva cosmológica. Voltando à passagem de Marco Aurélio sobre a meditação da manhã: lá temos a ideia de que formamos parte integrante da Natureza como um Todo Providencial. E quando olhamos a Natureza como um Todo, percebemos o quão pequenos somos e que temos uma existência temporária e muito curta dentro desse grande Todo! Eras se passaram antes de nós nascermos e eras se passarão depois que deixarmos de existir. Assim, o que julgamos como nossos “problemas” passam a ter uma dimensão infinitamente menor. É tudo uma questão de ponto de vista!

Esta visão pode parecer um tanto quanto pessimista, porque também diminui significativamente cada ser-humano.  Mas veja, aqui a ideia é que o Universo exibe qualidades que podem ser exemplos para termos uma “boa vida”. O Universo nos ensina ordem, estrutura e racionalidade. Como? Basta seguir os padrões repetidos da Natureza, como o movimento dos planetas, a alternância entre dia e noite e o ciclo das estações. Então, pensar em nós mesmos como parte da Natureza, nos ajuda a identificar, conhecer e usufruir da melhor maneira possível das nossas capacidades humanas sem esquecer, entretanto, da nossa finitude.  Este pensamento também nos traz a ideia de que estamos contribuindo com algo muito maior, do que apenas com projetos de trabalho ou mesmo projetos pessoais.

E, para finalizar, vamos falar de amor fati, claro! 🙂 Amor fati é algo impregnado nas Meditações.

“Ó mundo, tudo o que convém à tua perfeição, convém a mim! Nada me é prematuro ou tardio do que para ti é necessário. Tudo o que me trazem as tuas estações, é para mim fruto, ó Natureza! Tudo vem de ti. Tudo em ti reside. A ti tudo retorna.” [11]

Amar o que nos acontece, aproveitando cada oportunidade para nosso próprio desenvolvimento pessoal e consequente desenvolvimento dos que nos rodeiam.

E aqui fechamos nossa trilogia sobre estoicismo. Poderíamos ficar horas aqui conversando sobre este mesmo tema, mas estamos ávidos para voltar a Nietzsche…. 🙂 Todavia, ainda conversaremos sobre Shopenhauer antes disso!

Literatura à respeito de estoicismo não falta! Abaixo segue uma lista de sugestões. É bom sempre ler pela manhã (ainda mais se se toma café da manhã sozinho), assim tem-se o dia inteiro para refletir sobre o que foi lido. Uma carta de Sêneca ao dia, no café da manhã, curaria muitos dos males modernos!!!! Depois de fechado o ciclo das 124 cartas, pode-se iniciar o Manual de Epicteto. Este já é para iniciados ao tema e pode-se então desfrutar desta obra-prima com maior gosto! Marco Aurélio é leitura para qualquer época. Cada vez que se lê surpreende-se com um novo ponto de vista.

Espero que a leitura dos gregos antigos tenha sido agradável e proveitosa. Próxima semana daremos um salto na história da filosofia e conversaremos sobre Shopenhauer.


Renata Chinda

rechinda@gmail.com

https://dichterkomponist.blogspot.com/2017/10/os-estoicos-parte-iii-marco-aurelio.html

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Sobre bbraga

Atuo como professor de química, em colégios e cursinhos pré-vestibulares. Ministro aulas de Processos Químicos Industrial, Química Ambiental, Corrosão, Química Geral, Matemática e Física. Escolaridade; Pós Graduação, FUNESP. Licenciatura Plena em Química, UMC. Técnico em Química, Liceu Brás Cubas. Cursos Extracurriculares; Curso Rotativo de química, SENAI. Operador de Processo Químico, SENAI. Curso de Proteção Radiológica, SENAI. Busco ministrar aulas dinâmicas e interativas com a utilização de Experimentos, Tecnologias de informação e Comunicação estreitando cada vez mais a relação do aluno com o cotidiano.

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